Olá freguês!

António Joaquim da Cruz – abanadores feitos à mão

Abanador em execução pelo artesão António Joaquim da Cruz

Devoradas pelo engenho, as lascas toscas de madeira de austrália saem em filetes cada vez mais estreitos e polidos, até serem reduzidas a fitas muitas finas e maleáveis.

Desta vez, não foi precisa grande logística para recolher a matéria-prima. Há um viveiro de acácias (austrálias) mesmo à porta do nº 550, a última casa da Rua do Monte, em Midões, que faz a fronteira entre a aldeia e o monte. Foi ali que fomos visitar António Joaquim da Cruz, o único artesão barcelense especializado em abanadores.

E se a madeira de austrália está mesmo ali à mão, o mesmo não pode dizer do vime, que vem do Chile, e que chega ali, à Rua do Monte, como à maioria dos cesteiros do país, através de um importador e distribuidor das bandas de Leiria.

Para tecer os abanadores, António Joaquim da Cruz usa preferencialmente o vime. Mas quem não tem cão, caça com gato....
A falha de abastecimento não é, pois, causa bastante para arretar a produção: a austrália que floresce ali à porta, depois de cavacada e polida, faz as vezes da fibra importada.

A armação é também de austrália.
À entrada da oficina, encostados à parede, perfilam-se uns quantos paus de austrália já demolhados e descascados. Por ali, já deduzimos o tipo de lenha que o mestre procura nas suas investidas ao monte: galhos de um redondo perfeito, nem tão grossos que não se acomodem na mão fechada, nem tão finos que não aguentem os golpes que dividem o pau em 8 orelhas, deixando apenas uma base de pouco mais de um palmo, a servir de cabo.

É nesta armação que vai tecer a fita de vime – ou de austrália, quando aquele falta.
A tarefa não lhe toma muito mais do que cinco minutos. Nem sequer o polegar semi-amputado lhe diminuiu a agilidade.

Em média, faz cerca de 4 abanadores por hora. Quinze minutos para cada, mais coisa menos coisa. Não dá muito (nada que se compare com os tempos em que fabricava móveis, numa era em que o país progredia e a todos parecia que a coisa só podia melhorar!) mas vai dando para pagar as contas de quem tem a vida feita e os filhos criados.
Estando a obra pronta, passam as carrinhas dos revendedores a recolher.

Um desses revendedores é nem mais nem menos que a Cestaria Alvarinho, que visitámos há tempos, e que a par da produção própria, revende a produção de outros pequenos artesãos da zona. Às quintas-feira, por exemplo, lá está a banca montada na Feira de Barcelos: cestos e cestas, bancos e cadeiras de verga, chapéus de palha e os abanadores do nosso amigo António Joaquim da Cruz. Lá estão eles: abanadores tradicionais, feitos para atiçar os braseiros; os pintados, que nem por isso deixam de servir para atiçar braseiros, mas que são sobretudo uma expressão provocatória de preferências clubísticas ("Vermelho já não tenho nenhum para lhe mostrar. Vendi-os todos", dissera-nos o artesão aquando da nossa visita). Também os há para efeitos meramente decorativos e aí o feitio, o tamanho e o acabamento são conforme o gosto do freguês. As paredes são o destino quase certo destes abanadores, que não vimos na banca da Júlia Alvarinha, porque são feitos à medida.

“Escolha menina, é produto artesanal e é da terra!”. É o grito de guerra da Júlia Alvarinho, a quem a dureza da vida de feirante não faz mossa, nem tirou a candura ao sorriso rasgado.
É produto artesanal e é da terra, sim senhora...

António Joaquim da Cruz
Abanadores tradicionais para fins utilitários e decorativos

 


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