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Carlos Dias: artesanato em barro e porcelana

Carlos Dias: artesão ceramista


Carlos Dias é uma pessoa especial. Tem, como poucos, o singular dom de rasurar o esboço da própria história e reescrevê-la à sua maneira.

Nascido numa família numerosa e de origens humildes, cedo manifestou interesses pouco comuns para uma criança do seu meio. Aficionado por artes, era em banda desenhada que despendia os trocos que ia amealhando. A morte do pai ainda em criança determinou que abandonasse precocemente a escola e que, como os irmãos, se empregasse numa das fábricas de cerâmica que, à data, abundavam na vizinhança, na região nordeste do concelho de Barcelos.

Ao primeiro salário como operário ceramista destinou a realização de um sonho: ao cabo do primeiro mês de trabalho, foi a Braga – a pé, para não gastar dinheiro! – e entregou o soldo daquelas quatro semanas a troco de uma guitarra, feita artesanalmente por um bem conhecido artesão local. E foi sozinho que aprendeu as guitarradas com que ainda hoje anima festas e festivais.

Bem-disposto e diligente, sempre deixou boas impressões nas várias fábricas de cerâmica por onde foi passando, como pintor especializado – isto, apesar de ser daltónico. Aliás, entre os seus clientes regulares, conta-se precisamente o seu primeiro patrão, que frequentemente lhe encomenda brindes corporativos, assim como peças personalizadas para a sua coleção privada.

Na convulsão que assolou a indústria de cerâmica na viragem do milénio, Carlos Dias foi um dos milhares de trabalhadores que ficou sem emprego.
Com uma família para sustentar, sem emprego, sem grande instrução e sem experiência de trabalho noutra área, não eram animadoras as perspectivas de futuro. Mas não se deixou abater pelo pessimismo. Improvisou uma pequena oficina em casa e dedicou-se àquilo que sabia fazer. Começou por criar quadros de porcelana, com motivos florais. Inicialmente pujante, a procura começou depois a rarear, porque as modas fizeram-se outras. Intuitivo e versátil, Carlos Dias reage, estilizando a sua linha, ao mesmo tempo que se inicia noutro tipo de peças e noutro tipo de temáticas. Começa então a ganhar forma o seu actual portfólio: os presépios e as ceias, as figuras sacras – Cristo, Santo António, São Francisco, a Rainha Santa Isabel – assim como as profissões, os Mochos, as bailarinas, os anjinhos e os brindes de casamento.

É certo que o quotidiano e a religião, com forte incidência na sua obra, são temáticas comuns à maioria dos artesãos barcelenses, nomeadamente dentro do figurado de Barcelos, mas Carlos Dias demarca-se categoricamente desse universo: as formas minimalistas, os rostos sem definição, a presença reminiscente das flores, o formato miniatura e os tons naturais da porcelana e da grés são o carimbo inconfundível de um artista que não se sujeita a regras de estilo pré-determinadas e produz apenas aquilo de que realmente gosta.
Não sou a Cinderela. Se tenho um pé grande, não tenho de caber num sapato pequeno. Quero ser livre”.
O que, explica, não significa viver alheado do mercado; significa, isso sim, poder incorporar a todo o momento novas influências e ousar novas experiências. Coisa que, de resto, acontece frequentemente.

Há tempos, numa feira, um menino que por ali cirandava , apontou um presépio e sentenciou inocentemente: “Ficava melhor se pusesse umas flores ali no meio”. Não lhe pareceu razoável a sugestão, mas ponderou e, quando se propiciou, fez a experiência. Gostou do resultado e esta é, agora, uma peça recorrente no forno. Também a bailarina, uma das peças de cariz não religioso mais solicitadas, foi sugestão de um amigo, que procurava um presente personalizado para a irmã.


Humilde sem ser servil, auto-confiante sem ser altivo, independente sem ser irrealista, Carlos Dias sabe bem qual o seu lugar no artesanato de cerâmica. Reconhece que a sua obra não é para todos os gostos, sobretudo para os mais atreitos à estética tradicional, mas assume, sem pejo, que as coisas lhe têm corrido bem. A receita: criatividade, qualidade e preço ajustado. Três ingredientes que justificam a crescente procura e reconhecimento, mesmo em tempos de crise. “De Valença a Faro”, como diz, Carlos Dias é já uma referência entre lojistas e colecionadores. Não falha sequer na coleção de presépios da primeira-dama, Maria Cavaco Silva.

 

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