Senhor Soares. O artesão que leva a vida a brincar.

Se é verdade que há uma criança dentro de cada um, o Senhor Soares não faz o menor esforço para esconder a sua. Aos 70 anos, brincar é o seu modo de vida.
Filho de um carpinteiro, cresceu a conviver com os instrumentos de talhar a madeira. Mas não foi esse o seu ganha-pão. Durante décadas, foi motorista de autocarro, fazendo o vaivém entre os dois pólos da Universidade do Minho. Desses tempos, fala com saudade e confidencia até que às vezes ainda sonha que está ao volante. A mulher, também artesã, assiste ao relato com um sorriso e assente com a cabeça.
Naquele tempo, a madeira já era um hobbie e, frequentemente, uma fonte de rendimento extra. Começou pelas alfaias agrícolas em miniatura e foi até nesse âmbito que obteve a sua primeira certificação como artesão. Mas agora, já reformado e dono do seu tempo, são os brinquedos que lhe preenchem os dias – e a casa, diga-se.
No anexo contíguo à habitação, qualquer criança julgaria ter encontrado a oficina do Pai Natal. Do meio das máquinas e ferramentas, emergem as personagens de um imaginário que se perde na memória dos tempos, como o trapezista Malaquias, ou o Mickey Caminhante. Olha, até o Zé Moleiro anda por ali!
E ainda não vimos nada. Encostados a uma parede, empilham-se, como construções de legos, caixas e caixas de cartão, cheias de brinquedos de madeira. Com desembaraço, desempilha-as e volta a empilhá-las, para nos mostrar aviões, helicópteros e avionetas; comboios, carros de corrida e camionetas; triciclos, carrosséis e cavalinhos de pau. Mais os apetrechos dos jogos de antigamente e até instrumentos musicais: o iô-iô, o rapa e o pião, as fisgas e o jogo-do-galo; o teclado de madeira, a rela e o pica-pau.
"Tudo pintado com tintas ecológicas", vai repetindo uma e outra vez, por via das dúvidas.
Participante assíduo das feiras de artesanato, é sobretudo aí que dá vazão à produção e àquela excitação quase pueril que se lhe lê nos olhos e se vê nos modos.
Também na loja da Associação de Artesãos de Barcelos e no Museu do Pão, em Seia, estão à venda as suas miniaturas e brinquedos. Mas a loja que verdadeiramente lhe enche as medidas é a Mercearia Portuguesa, em Macau. Não há visita em que não lembre a Margarida, a famosa Margarida, que também alinha na sua brincadeira. "É aquela atriz das novelas, a Margarida Vila-Nova. Sabe quem é?"
Leva a vida a brincar. E se a brincadeira não lhe corre de feição (sim, às vezes acontece!), põe de lado o que está a fazer e pega "noutra coisa".
Que outra coisa?
Vai buscar as chaves e leva-nos a outro anexo, este paralelo à casa. É aí que guarda essas “outras coisas”.
No luminoso atelier de costura da mulher há uma grande bancada branca, onde bordados e vestidos de noiva aguardam conclusão. Arruma tudo para um canto para ganhar espaço. Sobre a bancada coloca agora, em jeito de exposição, todo o jogo do linho: o ripo, o engenho, o espadeladouro, o sedeiro, a roca, o fuso e a roda de fiar, o sarilho, o dobadouro e o tear. Reais, funcionais, mas em ponto pequeno, porque a fazer-de-conta tem mais graça.
"Têm de vir aqui um dia para verem também os linhos da minha mulher".
E lá fomos, com muito gosto, visitar a sua Inês!








