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Joaquim Esteves: o caricaturista

Joaquim Esteves - artesão ceramista e caricaturista

Fomos ao encontro do Joaquim Esteves por causa dos iogas – pequenas esculturas de barro, de linhas minimalistas, que havíamos descoberto numa das primeiras incursões à loja da Associação de Artesãos de Barcelos. Ali, emparelhadas com figurados vidrados e coloridos, assinados pelos mais reconhecidos artesãos da casa, as pequenas estátuas negras e baças pareciam destoar, como se pertencessem a um outro mundo.

À nossa chegada, uma cliente apressou o desfecho da visita. Apontou qualquer pormenor nas fotografias amarelecidas que trazia entre as mãos e cumpriu o ritual de despedida. Encomendava um busto.

Três passos atrás, aproveitámos as despedidas para observar furtivamente a oficina.

Numa mesa mesmo por trás da mão que ostentava as fotografias, dois outros bustos secavam: um homem e uma mulher. E não deixámos de sorrir ao pensar na coincidência daquele gesto de criação: ele – e não Ele - os criara, homem e mulher; do barro da terra os criou.
Mais além, as teias de aranha que pendiam de um casal de esculturas negras evocavam o fatal decreto que conhecíamos desse outro Criador: “Ao pó voltarás!"

O efusivo aperto de mão, ali ao lado, quebra esta corrente de cogitações bíblicas. Abrimos o nosso maior sorriso para finalmente entrarmos em cena. O mestre, que também o é nas boas maneiras, ainda acompanhou a visita à porta, o que nos ofereceu o pretexto para, a propósito do aceno de cabeça que a circunstância pedia, mudarmos de posição e escrutinarmos a oficina numa outra perspectiva.
Surpresa das surpresas: sobre a mesa onde discretamente nos apoiávamos, aguardava a vez, em fila, um rol de gente ilustre: Álvaro Cunhal, Fernando Pessoa e outras gentes ali da praça. Pequenas maleitas os trouxeram ali: raspagens, fissuras ou quebras não fatais que requeriam a intervenção estética do criador.

Os passos anunciam o regresso do mestre. Oferece-nos o braço em jeito de cumprimento, como o oleiro sempre faz quando está em exercício, e pergunta-nos aos que vamos.
Ah sim, os iogas!
Mas não, neste momento já não tem nenhum. Vendeu o último faz dias. Com mais vagar, mais há-de fazer.
E a nossa surpresa ante a revelação da origem de todas aquelas coisas: as pequenas esculturas negras foram as primeiras peças que o mestre produziu, ainda aprendiz, já lá vão umas três décadas… Na altura, aviava-as para um conhecido artesão do Algarve e era com o nome daquele que as assinava.

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