Olá freguês!

Júlia Côta - figurado de Barcelos

Figurado de Júlia Côta

Sob o sol poente que àquela hora da tarde entra pela porta aberta dos fundos da habitação, Júlia Côta abre o sorriso aos visitantes, sem sair do seu posto, no cantinho à direita da porta. Uma bancada perpendicular percorre as paredes, fazendo esquina, até terminar junto à porta. Sobre a estreita bancada há tintas, pincéis e barros, muitos barros – uns pintados, outros meio pintados, outros por pintar. Em frente à bancada há uma janela, por onde o sol entra, já coado pela cortina. É ali que ela nos recebe, sentada de frente para a janela e para os barros.
“É aqui que faço tudo: é aqui que moldo o barro e é aqui que pinto. Só saio daqui para ir ao forno”.

Não estranha a visita sem aviso nem propósito específico – quantos forasteiros fazem soar a campainha, sem outra razão que não a de conhecer em pessoa uma das figuras maiores do figurado de Barcelos? Habituou-se à ideia de ser procurada por gentes de fora e sabe de antemão ao que vêm: querem ver barros e ouvir histórias.

Pois não se faz rogada.

Os barros estão à vista, para quem os quiser apreciar: da antiga cristaleira, encostada à parede à esquerda da porta, emana uma grande mancha de cor, que parece tingir a própria sala. Na prateleira ao nível dos olhos, sucedem-se,  alinhadas, coloridas figuras femininas, de espessas sobrancelhas e pesados pendentes nas orelhas, que aguardam pacientemente o momento de se exporem numa qualquer feira de artesanato, de onde seguirão para qualquer outro ponto de mundo. Todas terão semelhante destino, excepto uma, porventura a mais desejada de todas: com cerca de meio metro de altura, a peixeira salta à vista entre as demais matronas. Apetece pegar-lhe, mas a mão esticada não a alcança. Fora ali colocada de propósito, a desencorajar fortuitas aspirações de posse. Quem não perceber o subliminar recado, que leia o aviso colado sobre o portentoso peito: «Não é para venda».
“Foi a primeira [boneca] que fiz assim. Nunca mais fiz outra igual”, esclarece perante o olhar indagador que já aprendeu a interpretar.

De dentro da turba de vestidos de roda que se reúnem na prateleira já curvada pelo peso, emergem, de quando em quando, cabeças de equívocas feições. Sobre a bancada de trabalho, lá no seu cantinho, à direita da porta, outras figuras de ignotas feições se posicionam para as derradeiras pinceladas.
“Que cabeças são estas? São lobas?”.
Hesita, pensativa.
“Eu sei lá. Se eu tivesse de dar nomes às peças não saberia que nomes lhes dar”.

Nas prateleiras inferiores da cristaleira, há, além das minhotas (ou serão rainhas?), diabos vermelhos, de vários tamanhos, músicos e galos. São galos, bem se vê, mas alguma coisa neles fere a icónica fisionomia a que a propaganda turística nos habituou. “Estes [galos] não são feitos em molde. Estes são feitos à mão e são únicos”. E lembra, certa de que o saberemos já, que o primeiro Galo de Barcelos foi o seu avô que o criou: “O Domingos Côto era o meu avô. E a minha Mãe era a Rosa Côta”.

É, pois, em honra do avô e da criação que lhe perpetuou o nome na tradição folclórica portuguesa, que dispensa os recursos de que se servem todos os outros fabricantes de Galos de Barcelos.

 

Ah barrista!

A evocação do avô e da mãe é o gatilho que faz disparar as memórias.
“Costumo dizer que comecei a estragar barro aos 9 anos”, diz num tom de quem já muitas vezes contou a mesma história. Faz uma pausa, como que a pôr as memórias em ordem. O pincel e a boneca nas mãos, às voltas.
“Foi num sábado. Eu vi a minha mãe tão aflita, com tanta louça para aparelhar, e tive tanta pena dela que senti que tinha de a ajudar”.
Nova pausa, esta mais breve.
Retoma a narração, agora para aclarar os termos: “Aparelhar é colar os achegos”.

Olha-nos de soslaio, a avaliar se a mensagem chegou a bom porto. Nem por isso. Faz nova investida: “ ’Tá a ver o músico? O corpo está feito. Depois é preciso colar os achegos: os braços, os 'pirâmbulidos', os chapéus e os outros achegos”.

Outra pausa demorada. A boneca e o pincel às voltas, nas mãos. Volta à carga, nitidamente emocionada: “O meu pai adorava o que eu fazia. Gostava tanto, que um dia disse à minha mãe: «Oh mulher, vamos dar sociedade à Júlia, que ela tem muito jeito para isto»”.

Foi nestes termos que se oficializou a transmissão do legado familiar. De oito irmãos, só Júlia deu continuidade ao ofício dos pais e dos avós. Nenhum outro irmão aprendeu a trabalhar o barro.

Ao serviço dos pais, recebia, no início, 15 tostões por hora. Competia-lhe “achegar as pernas e os corninhos dos bois”. Dois meses mais tarde, dobraram-lhe o soldo. Deixou de ser a moça dos achegos, passou a produzir peças inteiras. À falta de melhor, improvisava os seus próprios pincéis, com pêlos surripiados aos gatos.
“Rapava-lhes o pêlo do rabo e punha o molhinho de pêlos na ponta de um pau”.

Não tardou a fazer-se notar. Do Porto vinha amiúde um senhor procurar os seus barros. Era tipógrafo e fez-lhe um carimbo, para poder assinar as suas peças, já que não aprendera  a fazê-lo pelo seu próprio cunho. Mas advertiu-a: “Nas minhas peças não quero que use o carimbo!”.

Foi uma professora de Barcelos quem lhe assinou a escrevinhar as iniciais JC. “Sabe, são estes rabiscos que dão valor às peças, sem eles as peças não valem nada” – afirma, numa lacónica e irónica lição sobre a natureza das coisas.

 

A sucessão ainda não anunciada

As molduras nas paredes, a toda a volta da sala, parecem dar conta dos muitos anos que esta história tem. Quantos são, ao certo? Responde quase a soletrar: “Se-ten-ta-e-oi-to anos. Trabalho no barro há quase setenta”.

Atentamos nesses retratos, nesses diplomas e nesses prémios. Do seu posto, observa-nos em silêncio, ciente das histórias que essas molduras contam. Lá quando entende que é o momento, intervém, como que a atribuir um sentido aos pequenos pedaços de história ali emoldurados: “Tudo o que aprendi foi com a minha mãe. Não há dia que me sente aqui e que me não lembre dela”.

E o que aprendeu com a Rosa Côta, a quem vai a Júlia ensinar?
Dantes, respondia, desgostosa, que talvez a história da família acabasse por ali. Não é a resposta que ouvimos agora, com a filha Prazeres ao seu lado, de pincel em riste.

No centro da sala, de frente para a porta, por onde entram agora os últimos raios de sol, jaz uma mesa grande. Sobre ela, os últimos barros cozidos, que aguardam pintura. “Esta fui eu que fiz. Fiz tudo, desde o princípio”, diz Prazeres, meio orgulhosa, meio envergonhada. Pousa o pincel e vira a boneca de pernas para o ar. “Está a ver aqui? O Jota e o de Júlia Côta e um efe de filha. Não está nada mal, não lhe parece?”

Do seu cantinho, Júlia Côta sorri: “Eu acho que até está bem, acho que apanhou o jeito”.

 

© Feira de Barcelos. Abril 2014