Olá freguês!

Júlio Alonso - o mestre da louça preta

Júlio Alonso na roda de oleiro

João da Cunha Alonso | Carta de Artesão 11064


A quem se presta a ouvir a sua já longa história, Júlio Alonso começa por falar do avô: “O meu avô paterno era espanhol, da Galiza. Alonso é um nome espanhol.”

Não se sabe ao certo que forças moveram o ascendente espanhol até Prado, onde viria a nascer a primeira e a segunda geração de oleiros portugueses com aquele apelido. Ao que tudo indica, a olaria já era o ofício do patriarca e a preponderância, bem documentada, do então concelho de Prado na produção de louça preta levá-lo-ia à procura de melhor sorte.

Pois foi naquele importante centro oleiro que nasceu, em 1928, o neto do espanhol, e foi ali que se fez também oleiro:
“Nasci num dia em que a minha Mãe estava a ajudar o meu pai a cozer louça. (…) Nasci no meio disto” – assim se lê, em citação, numa das publicações que mais adiante nos mostrará.

Quem até aqui acompanhou esta narração legitimamente perguntará como veio a radicar-se em Barcelos, onde, afinal, bem poderia ter tido origem a história de um homem que nasceu no meio dos barros.

Também ele foi à procura de melhor sorte:
“Dantes, a louça era toda em barro: os púcaros, potes, as chocolateiras. Até 1950, eram cerca de 14 casas a produzir louça preta, em Prado. Depois, veio o alumínio e o plástico e a louça preta acabou”.

Havia que procurar alternativas de vida. A existência de várias unidades de produção cerâmica em Galegos, onde a esposa tinha família e propriedades, trouxe o casal para Barcelos.


Estranhos barros
Em Galegos Sta. Maria, onde a prática de cozedura diferia da de Prado, a cor negra dos barros de Júlio Alonso parece ter causado consternação. Houve mesmo quem intuísse intervenção do demónio. Os mais ajuizados não se atreveram a tais associações, mas assumiram que seria de outra natureza o barro que o forasteiro levava ao forno – talvez barro preto de si mesmo.
Cedo, porém, se desfizeram as dúvidas: nem os barros eram outros, nem as forças sobrenaturais participavam.
Depois de atingir os 1000 graus, a fornalha é guarnecida de combustíveis fumacentos, como a caruma de pinheiro, e o forno é vedado. É tão-só o fumo que faz preta a louça de Prado.

Pouco depois, quando o tio da esposa cessa actividade como vendedor ambulante, Júlio Alonso toma-lhe o lugar. De romaria em romaria, percorre todo o país, de Ponte de Lima a Lisboa. “Chegava a passar seis meses fora, desde Abril até Outubro”.
Nesse tempo, pouco parava na roda de oleiro. Revendia sobretudo os barros que se produziam na vizinhança – alguma louça, mas sobretudo os galos de Barcelos. Os galos é que estavam a dar!

A chegada dos filhos ditou o abandono das feiras e romarias. Empregou-se em algumas cerâmicas e, mais tarde, fundou, em sociedade, a sua própria unidade: a Fábrica Tulipa.

Foi mais ou menos por essa altura que voltou a sentar-se à roda de oleiro, nos tempos livres. Começou por fazer louça decorativa – louça preta, sempre! – e mais tarde alargou a sua produção ao figurado, que vendia para lojas em Vila Real, Chaves e Mondim de Basto.

 

"Amo isto"
Mas só em 1982, quando se reforma, é que se dedica a tempo inteiro à arte de berço. É também nesse ano que lhe é atribuído o Prémio Carreira pela Câmara de Barcelos. Somam-se as encomendas, os convites para expor e as entrevistas. À porta da oficina húmida, nos fundos da habitação, batem colecionadores, religiosos, arquitectos, investigadores, jornalistas. Uns querem barros, outros histórias.

Com a agilidade que a articulações enfermas ainda permitem, vai desenterrando memórias de dentro da caixa de cartão, arrumada sobre a grande bancada, entre barros partidos e barros em progressão. Dali saem recortes de jornais e outras publicações. Procura um espaço desimpedido, na mesa de trabalho, e com cautela abre uma edição volumosa, boa capa, papel de boa qualidade. É um catálogo de uma exposição de fotografia. «Modos de Vida», lê-se na capa grossa.
À medida que vai folheando, reconhecemos alguns retratos: o alpinista João Garcia, o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. Outros rostos nos vão fitando, sem que os saibamos reconhecer. As legendas dizem tratar-se de atletas, acrobatas, jornalistas, pilotos, apicultores. E entre eles, lá está ele, Júlio Alonso, Oleiro. Deixa a página aberta.
“Neste livro estão os melhores portugueses” – sentencia, com a gravidade que quem revelou um segredo há muito guardado.

A humidade que atravessa a oficina apressa as despedidas. Também a ele lhe consome os ossos. Mas nem assim a roda tem vagar: “Todos os dias venho aqui, nem que seja um bocadinho. Amo isto”.

 

 

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Júlio Alonso - Louça preta

Reprodução de imagem de São Francisco, a pedido de um missionário

Júlio Alonso - Louça preta

 


Clipping:

Minho Actual TV (2008): Artesão Júlio Alonso