Olá freguês!

Margarida Faria Mesquita – Bordado de Crivo

Margarida Mesquita executa o bordado de crivo© Feira de Barcelos


Há tempos, relatámos aqui o caso da Patrícia, que contra todas as suspeitas, aprendeu a urdir tapetes, mantas e bolsas com farrapos desperdiçados nas fábricas têxteis das redondezas.
Quis a sorte que o casamento a levasse a morar paredes-meias com uma das mais experimentadas bordadeiras de São Miguel, a D. Margarida Mesquita.

Mas não misturemos as águas. Uma coisa são as urdiduras de farrapos, outra coisa é o bordado de crivo, o bordado tradicional da freguesia de São Miguel da Carreira.

E se nesse outro relato nos atrevemos a dizer que poucas são as senhoras da terra que não sabem bordar, certo é que nem todas as bordadeiras são capazes de executar um bordado de princípio a fim.
No tempo em que o bordado empregava o mulherio da freguesia, a imperativa força da rentabilidade determinou a distribuição dos trabalhos conforme as aptidões individuais – e assim, umas só tiravam fio, outras só teciam o crivo, outras só faziam as serrilhas, outras os cordões exteriores e só as mais experientes aplicavam os bordados geométricos sobre a grelha de fio.
A D. Margarida é uma dessas poucas que faziam tudo.

Num relato entrecortado pela contagem dos fios – “que o crivo tem de ser um quadrado perfeitinho!” – recorda que no tempo da escola já ajudava no orçamento familiar com os 5 tostões que ganhava por cadilha.
Havia então, como ainda acontece, uma meia dúzia de bordadeiras que frequentavam as feiras e estavam em contacto com as casas comerciais. Eram elas que recebiam as encomendas e distribuíam o trabalho pelas mulheres, consoante as especialidades. Era para uma dessas senhoras que a Margarida-menina bordava a soldo. A senhora dava-lhe o pano e um punhado de linhas de lustro (a tal cadilha) e 5 tostões quando o fio terminasse.
Mas o mais das vezes, as senhoras davam-me mais um ou dois tostões, porque eu tinha um trabalho perfeitinho. Eu ficava toda contente e entregava-o todo à minha mãe.

Já casada, também chegou a bordar à jorna. Uma tarde por semana estava reservada para uma senhora da mesma arte. Mais tarde emprega-se numa multinacional. Nesse intervalo de 20 anos, pouco bordava, porque o tempo não dava para tudo. Foi a doença da mãe que a arrastou para casa outra vez e lhe devolveu as agulhas às mãos. Entretanto reformou-se e o linho passou a ser a sua companhia. Num só mês fez uma toalha de 3 metros – um record.
Mas as toalhas não são um exclusivo. Onde o crivo possa ter aplicação, ali empenha as mãos e o tempo: lençóis, mantas, cobertas de cama, enxovais, almofadas, naperons...
As bolsas de trapos, que ensinou à vizinha moça, foi um acaso. Não há muitos anos, visitou uma parente no Porto que havia adquirido uma dessas bolsinhas. Levou-a para casa por uns tempos e só de olho apreendeu-lhe a manha. E demonstra-o, à medida que faz o relato, repetindo os gestos com vagar, com o jeito próprio de quem se habituou a ensinar.

Jeito tem, mas faltam-lhe os pupilos. "É do que mais tenho pena. Nenhuma das minhas filhas aprendeu e as minhas netas não querem saber. Isto vai morrer com a gente mais velha”. Talvez não, D. Margarida. Talvez o bordado de crivo não tenha os dias contados. Ora veja aqui.

 

Desfiar as linhas para criar a grelha chamada crivo

Fazer a serrilha

Bordar o crivo

Bordar o crivo

Bordar o crivo

Cortar o cordão

Margarida Mesquita