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Maria Ermelinda Rodrigues & Elisabete Dias: bordado de crivo e outros bordados tradicionais

Ermelinda Rodrigues: bordado de crivo

Se quisessemos, a pretexto da história que vamos narrar, forjar um ditado popular, diríamos que quem nasce entre linhos e linhas, pela certa sabe bordar.

Assim foi com Maria Ermelinda, hoje uma autoridade em matéria de bordados; e assim foi com os seus filhos.
Com três anos – com três anos apenas! – já a filha Elisabete sabia tecer (“tecer” é uma das quatro fases de execução do Bordado de Crivo, o bordado tradicional da freguesia de Carreira, em que mãe e filha são especialistas).  Quem o conta é Ermelinda, com um misto de vaidade e emoção. E revolve os álbuns à procura da foto que atesta a proeza, não vá a precocidade do acto suscitar dúvidas no interlocutor. Na fotografia, a pequena Elisabete apresenta-se no palco da Mostra de Artesanato de Barcelos, a par de outras (não tão) jovens revelações.
Hoje, apenas a filha Elisabete se dedica profissionalmente aos lavores em linho, mas todos os filhos de Ermelinda aprenderam a manejar as agulhas (sim, também os filhos varões).

Foi a avó, Ana Gomes Araújo, mais tarde conhecida como Ana do Crivo, que introduziu a tradição dos bordados na família. Esta aprendeu a bordar com a própria mãe, que assim preenchia os dias invernosos ou as tardes de Verão, na hora de maior calor, entre as lidas da lavoura, que era o seu verdadeiro ganha-pão. Feita mulher, a avó Ana montou uma casa de comércio, em torno dos linhos. O negócio florescia, favorecido pelos costumes instituídos: não havia moça que não fosse guarnecendo de linho o seu enxoval. A filha Ermelinda entra na roda ainda pequena, porque os pedidos eram mais que as mãos. Mas duas mãos mais não chegavam para aviar os pedidos. E assim foram recrutando as mulheres da freguesia e arredores. Chegaram a ser cerca de 170 as bordadeiras por conta da Ana do Crivo.

Em proveito da rentabilidade, introduziu-se a especialização: umas apenas faziam o boleio, outras apenas marcavam, outras apenas teciam e apenas algumas bordavam. Umas faziam-no a tempo inteiro, outras apenas aos serões. “Era uma forma de ganharem um dinheiro delas e ficarem mais independentes dos homens”, explica Ermelinda, fazendo notar que os tempos hoje são outros. Não foi só a condição da mulher que mudou; também a disponibilidade para os investimentos em linho é menor. “Não é que as pessoas já não gostem dos trabalhos em linho”, justifica. “As mulheres continuam a gostar de bons atoalhados e de boas cortinas, só que nem sempre há dinheiro para pagar um mês de trabalho intenso ou mais até”. À medida que fala, estende uma grande toalha de mesa, toda ela delicadamente perfurada a compor motivos florais. “Um trabalho destes demora, à vontade, um mês e meio. Não pode ser barato”.

Hoje trabalham quase exclusivamente por encomenda. O volume dos pedidos já não obriga à sub-contratação, mas chega para manter mãe e filha ocupadas. Bem o vimos: várias vezes a conversa foi interrompida pelo trrim-trrim do telefone. Eram as clientes a querer saber das suas encomendas. Enxovais de baptizado, na maioria dos casos, mas não só. “Fazemos de tudo”, diz Elisabete, que também dá formação em bordados manuais e que gosta mesmo é de “fazer coisas novas”. E como que a ilustrar a amplitude de serviços, mostra-nos o bordado com que forrou o portefólio de uma estudante e a camisa branca bordada com os motivos dos Lenços de Namorados.

“Fazemos e aplicamos todo o tipo de bordados, em qualquer tipo de ponto: ponto pé-de-flor, pé-de-cadeia, canotilho, margarida, malmequer... Fazemos tudo”, repete por último, para que não restem dúvidas. 


Ermelinda Rodrigues: bordado de crivo

Ermelinda Rodrigues: bordado de crivo

Ermelinda Rodrigues: bordado de crivo

Ermelinda Rodrigues: bordado de crivo

Ermelinda Rodrigues: bordado de crivo

Lenços de Namorados de Elisabete Dias

Lenços de Namorados de Elisabete Dias

Lenços de Namorados de Elisabete Dias

Ermelinda Rodrigues e Elisabete Dias