Mário Coutinho: pintura tradicional de galos de Barcelos

Para quem, de um modo ou de outro, se interessa por artesanato, sempre chaegará o dia, cedo ou tarde, em que terá de enfrentar o Galo. Quando o dia chegou, fomos bater à porta do Mário Coutinho.
Em boa verdade, nem foi preciso bater. À hora marcada lá estava ele, de portas abertas, o bom anfitrião.
O plano era acompanharmos a pintura de um galo tradicional. Imaginávamos que fosse coisa mais morosa, a julgar pelo pormenor dos motivos. Engano nosso.
“Faço isto de olhos fechados”.
Já nós tivemos de arregalar bem os olhos para não perder pitada daquela sessão de make-up profissional: primeiro, uma cobertura de preto esmaltado, que vai fazer sobressair os motivos coloridos aplicados com traço fino e já treinado. De cabeça para baixo, corre a crista e a barbela a vermelho; o bico a amarelo. Com a pintura já seca, remata-se então a base a azul. Et voilà!
O Galo vai agora secar, pendurado no arame. Nem assim, preso pela crista, perde os ares de quem manda no poleiro.
O primeiro a que assistimos foi assim, passo a passo, como faz quando vai às escolas fazer demonstrações. Nessas ocasiões, faz-se acompanhar de mais ou um dois artesãos. “Um ou dois amigos”, como diz.
Mas na oficina, quando se trata de aviar encomendas, a sequência é outra: as pinturas são feitas por séries de cor, para render. E mesmo assim…
“Faço isto de olhos fechados”, repete. “Mas o preço a que cada galo é vendido não paga o trabalho que dá.”
Enquanto dá voltas a outro galo, conversa sobre as voltas da vida.
Herdou o ofício do pai, que se dedicou à cerâmica quando perdeu o emprego na fábrica de madeira, ali na zona. Não lamenta a sorte que lhe coube – gosta do que faz e fá-lo com gosto.
“Há artesãos que pintam sempre o mesmo motivo. Eu não. Tenho três motivos certificados”.
O que lamenta é a crise e os custos de se ser empresário em nome individual e que às vezes o obrigam a pensar o rumo de vida.
Foi precisamente para contornar os custos que o forno foi comprado a meias com outra artesã ceramista. O forno foi instalado em casa dela e é lá que vai, já nos próximos dias, cozer os galos que lhe encomendaram como lembrança de casamento.
Mário Coutinho - Pintura tradicional de Galos de Barcelos
Artesanato Certificado









