Olá freguês!

Joaquim & Joaquina Torres – Paus para Tamancos e Socos


É Pauzeiro, não é Tamanqueiro!

Foi através do Facebook que viemos a conhecer a D. Joaquina, que assim comentou a imagem de uma banca de socos, na feira de Barcelos: “Olha os socos, parte do meu trabalho”.
Sem nada perceber, quisemos saber tudo e logo ali ficou concertada uma visita. E foi assim que no segundo sábado de Maio fomos bater à porta dos Torres, na freguesia de Pedra Furada, em Barcelos.

Não foram precisas grandes apresentações. A D. Joaquina já tinha feito o trabalho de casa. Hábil na utilização da Internet, já tudo sabia sobre este projecto e já tinha colocado o marido a par, que logo viu grande validade neste encontro, para esclarecer, de uma vez por todas, que “pauzeiro não é tamanqueiro”

Como diz?
Pacientemente, nos explicou então as várias etapas de desenvolvimento do típico calçado rural do Douro e Minho – os chamados socos ou tamancos. O pauzeiro ocupa-se apenas das solas de madeira (os chamados "paus"), que são depois entregues ao tamanqueiro, a quem compete pregar o couro. Antes desses, haverá ainda a contar os madeireiros, que abatem os troncos de amieiro, madeira apropriada pela conhecida resistência à água; e depois, os feirantes e lojistas, que entre pregões e outras técnicas de marketing, vão escoando a mercadoria como podem.

Entendido: são Pauzeiros, portanto. E como se fazem as solas?
Não, não… A conversa é, agora, com a Senhora. Afinal, é ela quem lhes desenha a forma, riscando directamente nos cavacos de amieiro. Com as talas define a forma do pau, consoante a tipologia dos socos a desenvolver (o soco poveiro, o soco rebelo, a soca da velha e as chancas); com o molde afina os tamanhos, que vão da miniatura ao calcanhar de Golias.

Os cavacos riscados vão agora às mãos do marido, que na serra de fita lhes apara os excessos, seguindo os contornos do risco traçado pela mão já experimentada da sua senhora. Não é tarefa a que possa entregar-se sem cuidados. O risco é grande e o artesão está bem ciente dos perigos. E se nas peças de maior dimensão se pode socorrer de um gancho de madeira, que poupa os dedos à gula da lâmina, nas miniaturas, a prótese improvisada é mais empecilho que auxílio, e os perigos adensam-se. Nessas ocasiões, o nervosismo cresce e não raras vezes são precisos calmantes para levar o trabalho a bom termo.
Da serra já saem as solas feitas. São toscas, imperfeitas e negras, mas já ninguém lhes questiona a forma e o destino – são solas de tamancos, bem se vê!

É hora de as levar para a “estufa” – um compartimento feito forno, onde as solas são penduradas, como chouriços e presuntos, em fileiras de arames dispostos horizontalmente, onde ficam o tempo que for preciso, a absorver o calor e o fumo da fogueira que arde por baixo.  É este o processo que confere à madeira a impermeabilidade que torna as socas tão aptas para os trabalhos rurais.
Da primeira vez que o fez – teria o Sr. Joaquim os seus 15 anos – foram as solas ao ar. Com o tempo, aprendeu a técnica, mas não perdeu o medo de ver o fogo consumir uma jornada de trabalho.

Não havendo percalços a registar, as solas saem da estufa inteiras e resistentes à chuva e à humidade, mas negras como breu. Na bancada de madeira ali ao lado da estufa, é a Senhora que lhes retira a pequena tacha que aplicara no tacão, para ter jeito de as pendurar no arame. Cabe agora ao marido “passar as golas” e “circar” os paus nas máquinas, que é como quem diz, poli-las e fazer-lhe o friso onde um tamanqueiro há-de um dia pregar o couro.

E os tamanqueiros, amigos?
Agora é que a porca torce o rabo, lê-se-lhe no sorriso amarelo. É que os tamanqueiros que conhece, em Barcelos, em Sever do Vouga, em Cantanhede, em Ponte de Lima e em Famalicão, são senhores de idade avançada. Com eles, irá o ofício… e atrás deste, o que a ele anda atrelado, o de pauzeiro.

Mas não falemos de coisas tristes, amigos. Diga-nos mas é como foram dar pauzeiros.
Uiii… longa história esta! Mais vale começar pelo princípio.

 

40 anos a tocar os pauzinhos
Tudo começa nos anos 70, quando o nosso amigo, na altura adolescente, vai trabalhar numa fábrica da especialidade. Foi ali que levou a reprimenda por uma leva de solas consumida pelo fogo, e que ainda hoje tem presente quando fecha a porta da estufa. Foi também ali que pela primeira vez enfrentou o monstro que é a serra de fita, que o fez repensar a vida logo no primeiro dia de trabalho. Pensou e repensou, mas voltou no dia seguinte, por força dos 20 escudos que ganhava ao dia.

Dali sai, pouco tempo depois, a convite da Fábrica de Saltos & Socas, de Águas Santas, que lhe apresentou o que à data parecia ser uma proposta irresistível: 14 contos por mês, mais alojamento, alimentação e férias, coisa que até então desconhecia. A vida corria bem: ao segundo mês comprou uma mota e nos meses seguintes foi provando o que a vida tinha de bom para oferecer e que o dinheiro podia comprar.

Com a experiência adquirida, acaba por fundar, em sociedade, a Pauzaria Tofal,  que passou a fornecer a própria Fábrica Saltos & Socas, com uma produção de 800 pares de solas por dia.

Entretanto, mudaram-se os tempos, mudou o mercado. Não, não vinha da Ásia o perigo. A concorrência morava ao lado. Era em Itália que os “copiadores” reproduziam os tamancos, em material sintético e, claro está, a outro peço. A fábrica fechou.
Ficaram umas quantas máquinas, ficou o experimentado artesão e entrou em cena a mulher, que toda a vida trabalhara no ramo têxtil. No rés-do-chão da habitação, os dois produzem agora cerca de 30 pares de solas por dia, a que uma mão cheia de velhos tamanqueiros hão-de dar a forma de socas.

 
 Com o auxílio das talas e dos moldes, a D. Joaquina risca nos cavacos de amieiro a forma e o tamanho dos "paus".

 

Na serra de fita, o Sr. Joaquim lamina o pau, seguindo o risco traçado pela mulher.

É na estufa que os "paus" adquirem a resistência à água e à humidade.

Circar: fazer o friso dos "paus"

Depois de polidos, os paus vão, em lotes, para a oficina de uma meia dúzia de tamanqueiros, já velhinhos, que lhes hão-de pregar o couro.© Feira de Barcelos. Maio 2013

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