Olá freguês!

A Feira de Barcelos, por José Carlos de Vasconcelos

1 de Dezembro de 2012 Deixe um comentário Ver comentários

"A Feira de Barcelos é ou era o mais belo espectáculo de Portugal. Muitas vezes o disse, entre amigos e camaradas de ofício; muitas vezes, sem êxito, o tentei captar em imagens, armado de máquina fotográfica; e muitas outras vezes ainda pensei fazer, mas nunca fiz, uma reportagem visando dar conta e contar: o colorido, o ritmo, a animação, a variedade, o significado, o lado humano, o caracter profundamente português e popular, da Feira.


Porque há poucos lugares e poucos 'eventos', se é que há algum, como este, em que tanto se sinta a presença e o pulsar do nosso Minho, e mesmo do nosso povo. O povo que cá ficou e o que foi forçado à diáspora, o que anda pelo mundo e não dispensa vir mergulhar, refrescar, as raízes fundas no que há de mais nosso. O povo que é um só, de muitas gentes, diferentes e iguais; o povo irmanado pelas origens, pelo chão, pelo sangue, pela razão, pelos sentimentos, por tudo (...). O povo que é o verdadeiro «sujeito» da Feira de Barcelos.


É tudo isto, e mais ainda, que nela me deslumbra. Deslumbra e faz com que, sem falta, pelo menos uma vez por ano, numa quinta-feira de Agosto, eu deixe o sol suave e o «calor fresco» da minha Póvoa para ir derreter à torreira do fim da manhã e do princípio da tarde na linda cidade de à beira Cávado. Levando sempre no programa, devo confessar, o almocinho, bem ao gosto do minhoto que sou, na Bagoeira - com o devido respeito pelos 'congéneres' mais pequenos que em matéria culinária não lhe ficam atrás -, Bagoeira que nesses dias é uma espécie de prolongamento natural do bulício, do espírito e do sabor da própria feira.


E recordando sempre também, nessas repetidas incursões, o tempo distante da infância, adolescência, início da juventude, em que as Cruzes, em particular a «noitada», representavam para mim uma festa de arromba.

 

Repare-se que comecei por escrever que a Feira «é ou era»… Era?
Não se pode ocultar que algum do seu singular encanto se perdeu com a «normalização» ou pequena globalização de certos materiais e objectos produzidos em série, sem qualquer arte ou especificidade, em prejuízo das magníficas peças de artesanato e dos ofícios tradicionais. Isso, porém, não acontece só em Barcelos. Sei bem, por exemplo, que o mesmo ocorreu com a espantosa Feira de Caruaru, a capital do Agreste pernambucano, a cento e tal quilómetros do Recife, tida como a maior e mais típica do Brasil, se não da América Latina. (...)


De qualquer forma, se é certo que em Barcelos desapareceram ou quase desapareceram da Feira – não só as das Rosas Ramalhos, dos Mistérios e seus descendentes, mas todas elas; se as bonitas peças utilitárias, os bonitos objectos, utensílios, de cerâmica e de madeira, vão desaparecendo, enquanto cresce desalmadamente uma gama de produtos vulgares e de mau gosto, iguais em toda a parte – a verdade é que a Feira de Barcelos «resiste», apesar de tudo mantém o seu espírito e o seu carácter. E deve-se aplaudir com ambas as mãos tudo o que se faça para preservar tal património e memória.  (…)"


José Carlos de Vasconcelos (2007)*

in Artesanato e Feiras de Barcelos, por Carlos Basto (Figueirinhas 2008)
* Jornalista, Escritor e Diretor do Jornal Artes e Letras. Retrato por Carlos Basto (ibidem)



Feira de Barcelos

 

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