Olá freguês!

A Feira de Barcelos, por Maria do Pilar Figueiredo

1 de Dezembro de 2012 Deixe um comentário Ver comentários

"Falar de Barcelos é inevitavelmente evocar os barros e os artistas no geral, e de um modo especial é falar de nomes como Rosa Ramalho, Mistério e tantos outros.

 

É evocar também toda a espontaneidade da feira semanal onde, para além da sua grandiosidade, o típico e o insólito se cruzam e as cenas mais inesperadas se oferecem ao olhar do forasteiro, porque é sem dúvida, uma feira diferente, esta feira que se desenrola do nascer ao pôr-do-sol, sob uma floresta de toldos claros a sugerir acampamento beduíno.

 

E embora haja, como em quase todas, a presença dos feirantes atroando os ares com o seu vozear e a música que desafinados altifalantes transmitem arranhando os ouvidos desprevenidos, é uma feira diferente de qualquer outra. A marcar a diferença, a profusão dos produtos agrícolas e o tipicismo de quem os vende, porque não é nos barros a merecer um lugar especial no vasto recinto que Barcelos tem, nesta feira, a sua representatividade maior, porque está, sobretudo, no espaço reservado aos produtos agrícolas.

 

Aí, sim. Aí é possível deparar com um Barcelos rural autêntico, nas mulheres das mais diversas idades que, na “carreira” expõem a seus pés os produtos da sua horta, acomodados em pequenas sacas. Horta que se imagina espontânea, genuína, anárquica, tal a profusão de legumes e sementes, hortaliças e ovos, ao lado de laranjas colhidas directamente de centenárias laranjeiras cuja frescura é testemunhada nas folhas verdes que alguns dos frutos ainda ostentam… Laranjas vendidas “a olho” ou seja à dúzia, tal como as peras e as maçãs.

 

Frutos no seu estado natural, sem qualquer operação de cosmética e que sendo menos atraentes para um primeiro olhar, conseguem seduzir os compradores através do seu intenso perfume que desvenda um sabor antigo e autêntico só possível de obter nas velhas árvores de tronco musgoso e larga copa rebelde.

 

Como estátuas, ou como rainhas orgulhosas do seu pequeno reino, as mulheres aí permanecem de pé, aprumadas, sem pressas nem impaciências, aguardando o momento de feirar. Mulheres discretas, aparentemente dóceis e ingénuas. Mulheres que sabem ser comedidas sem deixarem de ser atentas e astutas.

 

Estabelecem, por vezes, curiosos diálogos com os turistas e deixam que as fotografem sem que isso as perturbe ou constranja. Ali, com os seus produtos aos pés, é como se não tivessem saído da casa que se imagina de rudimentar granito, rodeada de vegetação desordenada e pujante.

 

Mas toda esta teluricidade não se limita à presença das lavradeiras. Abrange outras figuras tais como a mulher da limonada que circula por entre cestos e sacos, apregoando: “É com’a neve! Quem mais quer buber?!” Presença insólita numa época em que reinam por todo o lado as coloridas embalagens de refrigerantes estrangeiros.

 

Alheia à modernidade dessas bebidas, a mulher lá segue, atenta aos hipotéticos fregueses; leva à cabeça o cântaro de barro envolto em cortiça e na mão uma espécie de bandeja de asa, onde dois ou três copos de vidro trabalhado repousam de fundo para o ar mergulhados na água – rudimentar higiene – à espera de vez de servirem este ancestral refresco de limão, aguardente e açúcar.

 

A confusão de gestos e vozes cresce com a manhã, torna-se intensa. Os pés tropeçam constantemente noutros pés e os cotovelos abrem a custo caminho, sobretudo na secção de produtos hortículas, produtos vindos de todo o Concelho e também dos concelhos da beira-mar.

 

Na secção de barros e artesanato, porém, o ambiente é diferente. Circula-se melhor. São de outra espécie os vendedores e os compradores também. Em lugar dos artesãos, depara-se, no geral, com comerciantes que compram o que os outros produziram e com a devida margem de lucro os vão vendendo principalmente a turistas estrangeiros que ali se demoram a admirar esses testemunhos da arte popular barcelense que, sem regatear preço, adquirem. Destes destacam-se os nórdicos e também ingleses vindos dos hotéis da beira-mar, sobretudo de Esposende, os quais estabelecem, por veze apoiados num ou outro vocábulo do nosso léxico, linguagem que os sagazes vendedores aprendem sem esforço.

 

Há também os que da Galiza descem até Barcelos, sobretudo atraídos pelos atoalhados e domésticos objectos de metal, tentadores, que as tendas expõem profusamente.

 

Mescla de sons, cores, gestos, palavras, assim é na feira semanal de Barcelos. Dia em que a cidade é sacudida na sua paz, e as ruas se enchem de sons e vida, desde os jardins coloridos e viçosos até às ruas medievas que, nos restantes dias, parecem dormitar num silêncio de séculos.

 

Assim é Barcelos neste turbilhonar de vida que é a sua feira semanal. Feira sobretudo agrícola e artesanal, viva, autêntica.

 

Assim é Barcelos, à quinta-feira."

 

 

 

 


Maria do Pilar Figueiredo (2007)
*
in 'Artesanato e Feiras de Barcelos', Carlos Basto (Figueirinhas 2008)
*Escritora, nascida na freguesia de Cambeses, Barcelos. Retrato por Carlos Basto (ibidem)


© Imagens: Feira de Barcelos.

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