Olá freguês!

Outubro 2013

Tudo e mais alguma coisa, diz ele...

27 de Outubro de 2013 Nenhum comentário

José Quitério, o mais conceituado crítico gastronómico do país, andou por Barcelos, a pretexto da sua coluna semanal para o Expresso.

E se lá foi para se sentar à mesa do Bagoeira e vir depois contar como foi, não resistiu a fazer, antes disso, um apontamento ao acampamento de tendas brancas que todas as quintas-feiras se monta mesmo à porta do restaurante:

 

“(...) Não se esgota por aqui a medievalidade e muito menos a monumentalidade barcelense. O que arrisca esgotar-se-me é o espaço, pelo que dou o necessário salto no tempo, não sem antes referir o vastíssimo Largo da Feira, onde todas as quintas-feiras se merca tudo e mais alguma coisa da ruralidade e do artesanato, constituindo, no género, a maior feira minhota. (...)”

Zelos em Barcelos, por José Quitério
REVISTA [Expresso 26/Out/2013]

 

 

Do barro da terra os criou

22 de Outubro de 2013 Nenhum comentário

Joaquim Esteves - artesão ceramista e caricaturista


Fomos ao encontro do Joaquim Esteves por causa dos iogas – pequenas esculturas de barro, de linhas minimalistas, que havíamos descoberto numa das primeiras incursões à loja da Associação de Artesãos de Barcelos. Emparelhadas com figurados vidrados e coloridos, assinados pelos mais reconhecidos artesãos da casa, as pequenas estátuas negras e baças pareciam destoar, como se pertencessem a um outro mundo.


À nossa chegada, uma cliente apressou o desfecho da visita. Apontou qualquer pormenor nas fotografias amarelecidas que trazia entre as mãos e cumpriu o ritual de despedida. Encomendava um busto. Três passos atrás, aproveitámos as despedidas para observar furtivamente a oficina. Numa mesa mesmo por trás da mão que ostentava as fotografias, dois outros bustos secavam: um homem e uma mulher. E não deixámos de sorrir ao pensar na coincidência daquele gesto de criação: ele – e não Ele – os criara, homem e mulher; do barro da terra os criou.


Mais além, as teias de aranha que pendiam de um casal de esculturas negras evocava o fatal decreto que conhecíamos desse outro Criador: “Ao pó voltarás!”

 

 

 

Gaba-te cesto que vais à vindima!

13 de Outubro de 2013 Nenhum comentário

Cesto de verga

Talvez sugestionados pelo cheiro de uvas esmagadas, que fica à passagem dos últimos tratores que andam ao serviço das vindimas, pusemos os pés ao caminho, rumo à casa do Senhor Pereira, cesteiro há nada mais nada menos que meio século.


E se íamos com a ideia nos cestos de vindima, ficamos logo a saber que cestos, como os chapéus, há muitos! Nós bem que escrevinhámos, à medida que o mestre enumerava do alto do seu meio século de saber, tentando debalde relacionar o nome com as feições das peças que se empilhavam na nossa frente, mas era exercício para que não tínhamos treino bastante, pelo que não admira que do rol nos tenham escapado alguns: ele há cestos de lavoura, cestos de vindima (e aqui, temos os de Guimarães, os do Douro…), cestos de lenha, cestos de roupa (os da suja e os da lavada), os cestos de pesca, os barreleiros, os merendeiros e as condessas. Feitos em miolo de vime, vindo de Santiago do Chile; em cana de bambu, colhida na zina de Vila Verde; em medula de Bambu, vinda da Índia e comprada a importadores espanhóis; ou em tala de pinho, cortado nas nossas matas e cavacado ali mesmo na oficina; em cor natural ou tingidos com viochene; forrados em tecido de juta ou em bruto – há cestos de todas as formas e feitios, para todos os usos e costumes.
De cestaria tradicional estamos, pois, mais ou menos conversados.


Entramos agora no capítulo das novidades, que isto já se sabe: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e parar é morrer. E se não foi o caso de a necessidade aguçar o engenho, pois que a bom obreiro nunca faltou a clientela, de grande habilidade deu prova o artista. Que o diga o júri da Feira Internacional de Artesanato (FIA), que este ano, em que o artesão pela primeira vez participou no certame, lhe atribuiu, de chofre, o segundo lugar e uma menção honrosa. O primeiro mereceu-o o alforge de bicicleta em vime, tão a preceito dos ares dos tempos. A menção honrosa, valeu-lha a mimosa cama de bebé em madeira e vime.
Parabéns ao mestre!