Olá freguês!

Nuestros hermanos, os cesteiros de Vigo

3 de Setembro de 2014 Deixe um comentário Ver comentários

No casco velho da vizinha cidade de Vigo, no exacto ponto para onde apontam os roteiros turísticos, há uma ruela medieva que apela aos transeuntes, como se a subida sinuosa prometesse uma oculta recompensa, lá atrás daquela última esquina.

Quem, por distração ou por efeito do cansaço da subida, não prestar atenção à sinalética toponímica, intuitivamente a lembrará pelo seu nome efectivo – Rua dos Cesteiros.
É essa a imagem que fica mesmo a quem, como nós, ali chega pela primeira vez num dia chuvoso: não é o número da porta que identifica as casas; é o aglomerado de cestos em torno das entradas.


Em sentido ascendente, entrámos na primeira porta, à esquerda. Ali nos recebeu um vetusto cesteiro que logo nos deu a saber que é de cesteiros portugueses que descende. E é com um sotaque forçadamente português que se apresenta como António Soares (embora, mais tarde, venhamos a saber que se escreve, afinal, Suárez).

O seu avô, natural da freguesia de Gonçalo, na Guarda, foi ali estabelecer-se por razões que ignora. E como ele, muitos outros, ficamos a saber pelo senhor Suárez e, mais tarde, também pelo guia visual «Centro Histórico de Vigo», da autoria de Basilio Cegarra:

Rúa dos Cesteiros: (...) debe o seu nome á peculiar artesanía de trenzar o vimbio que aquí se pratica dende mediados do seculo XVIII, sendo familias portuguesas las que comercializaron tal oficio xeración tras xeración" (p. 45).




Cesto: de madeira ou de vime, é pau para toda a obra!

Parece mais ou menos óbvio que terá sido a intensa actividade pesqueira e mercantil do porto de Vigo que para ali atraiu os nossos cesteiros do interior, em períodos de maior escassez do trabalho. É essa a ideia que fica, depois de uma visita ao Centro de Artesanía Tradicional de Vigo (CAT), onde a cestaria ocupa lugar de honra, tanto no espaço expositivo, como nas muitas edições ali disponíveis.


E terão sido, por certo, esses cesteiros imigrantes que ali introduziram o nosso bem conhecido ditado, que encontrámos, já adaptado à língua local, a ilustrar as paredes do CAT:  "Quen fai un cesto fai un cento, se lle dan vergas e tempo".


De uma das edições que recolhemos no CAT – um desdobrável “Cestos do Mar de Vigo”, produzido pelo Museo do Mar de Galicia – aprendemos que são, pelo menos, onze os modelos de cestos adaptados a necessidades ou tarefas específicas, relacionados com a actividade piscatória, desde a captura do peixe, ao seu transporte e conservação:

1. Canasto – almacenaxe e descarga das capturas nos barcos;


2. Tercio – trafego de peixe nos portos;


3. Patela de Traíña – patela do marinheiro;


4. Patela – arrombar o peixe para a súa venda;


5. Nasas – trampa para a captura de pixes e crustáceos;


6. Lavaxe – trafego do peixe os peiraos;


7. Esporta – transportar o palangre;


8. Cestón do peixe – trafego do peixe nos portos;


9. Cesto Viveiro – conservar o cebo vivo;


10. Cesta de pescador – gardar as capturas na pesca com cana;


11. Cesta de mariscar – apañar marisco.

 

Do CAT saímos bem abastecidos de leituras. Entre vários flyers, brochuras, desdobráveis e roteiros, figura uma edição antiga da revista Obradoiro de Artesanía (nº 11, Julho de 2013), que nos proporciona mais um encontro com o senhor Suárez:

“Nesta casa nacin eu, aqui traballaron os meus avós, os meus pais… O meu avó naceu en Portugal, alá na Serra da Estrela, veu dunha aldeã onde case todos son cesteiros, ainda hoxe, Gonçalo, na Guarda. Entre 1905-1910 chegou a Vigo, no sabemos como, instalou-se aqui, e qui nacemos todos, os meus irmáns e mais eu. Pero o único que seguiu co oficio fun eu, os mais novos non quixerón.”




O velho e o mar

Não é ao acaso que a publicação traz o senhor Suárez às suas páginas. É que este nuestro hermano é uma pessoa querida naquela casa. O cesteiro foi formador no CAT e foi o responsável pela recuperação de muitas das peças antigas que ali pudemos observar: cestos para apanhar polvo, cestos para pescar enguias, cestos de carga, as canastras semelhantes às das nossas varinas;  também guizos e  até mesmo um andador (uma espécie de saia, em vime, dentro da qual se colocavam as crianças, que ficavam assim amparadas, mesmo antes de aprenderem a suster o corpo).


Sobre a estreita relação dos cestos com o mar, que tão bem conheceu, antes de os polímeros sintéticos lhe tomarem o lugar, diz o mestre, e vale a pena ouvi-lo com atenção:

“Agora co plástico, cando rompen os colectores de plástico lánzano ao mar, e é un problema, porque os de cestería, aos dez días desaparecen, cómeos o mar e podrecen, pero os de plástico botan aí anos e anos”.



 

 

 

Antonio Suárez, cesteiro residente na Rúa dos Cesteiros, em Vigo, descendente de cesteiros Portugueses, oriundos de Gonçalo, na Guarda, que ali se fixaram a partir do século XVIII.

Centro de Artesanía Tradicional de Vigo (CAT): imagem antiga da profusa utilização de cestos junto ao Porto de Vigo. Na legenda, um velho ditado português, possivelmente ali introduzido pelos cesteiros portugueses que se fixaram naquela cidade, a partir do século XVIII.

Centro de Artesanía Tradicional de Vigo (CAT): antiga canastra em madeira rachada, usada para transporte de peixe.

Centro de Artesanía Tradicional de Vigo (CAT): antigo andador, em vime, recuperado pelo senhor Suárez.

Centro de Artesanía Tradicional de Vigo (CAT): pormenor de um antigo cesto de vime, recuperado pelo senhor Suárez.

 


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