Olá freguês!

"Sonho muitas vezes assim. Depois, faço os sonhos no barro."

1 de Fevereiro de 2014 Deixe um comentário Ver comentários

«Certa ocasião fui de longada até Barcelos. Depois, caminhei por uma estrada de terra solta e vermelha, bordejada por vinhas de enforcado e árvores cujas copas se uniam. Queria chegar a São Martinho de Galegos, lugar de barristas, com particular evidência para Rosa Ramalho, ou Ramalha, cuja notoriedade se devia, em grande parte, a José Ernesto de Sousa, importante homem de cultura, assinalada por uma curiosidade activa de carácter renascentista.

A obra da Ramalha parecia uma representação das teses surrealistas: harpias, Cristos de várias crucificações, demónios e animais estrambólicos, ciclopes medonhos, mistérios e espantos.


Era uma velha pequena, seca, magra, astuciosa. Às páginas tantas da conversa perguntei-lhe o porquê daquelas esculturas, tão estranhas quanto tenebrosas. Disse-me: "Sonho muitas vezes assim. Depois, faço os sonhos no barro."


Podia, agora, recorrer a Freud, e à "Interpretação dos Sonhos", livro que marcou parte da minha geração. Mas Freud dá para tudo, e dá, pelo menos neste momento, para lhe citar a frase: "Os sonhos são desejos recalcados e retratos das possibilidades acaso impossíveis." Retratos, máscaras, persona: as equivalências proporcionam várias leituras. Porém, também permitem entender que todo o retrato é deformado, porque não é total. Melhor do que ninguém, o nosso Columbano esclareceu o lugar procurado nos seus retratos: o sentido da alma.

No entanto, mesmo através dessa procura, toda a arte (pintura, romance, novela, conto, cinema, teatro) dá notícias: notícias do que se passa na acção ou no coração dos homens. Se o universo de Rosa Ramalho, distorcido, por vezes repulsivo, possui ligações com a escrita automática surrealista, também estabelece relações secretas, mágicas, com Dante, com Proust ou, até, noutra extensão, com Wagner. Nenhuma destas afirmações é impetuosa ou leviana, exactamente porque todas as manifestações artísticas do homem correspondem a um diálogo emprestado. Com objectivos semelhantes: o conhecimento da condição humana. A vocação de procura e a tendência obscura para a configuração do retrato aproximado de quem somos, afastam-se das ciências cognitivas porque pertencem aos domínios "irracionais" da criação. Nenhum retrato o é, rigorosamente, porque ninguém é o que julga ser, nem aquilo que os outros presumem. É essa complexidade que constitui a riqueza imensa e inquietante da nossa condição.

Infernos e paraísos, opacidades e claridades; porém, tudo efémero. A máscara do retrato altera-se com o espírito do tempo. Nenhum de nós é o que foi. O que, apressadamente, se designa por "coerência" contraria o próprio fundamento evolutivo. Não é só Darwin e Freud que explicam. Bertrand Russel, na sua "Autobiografia", não se cansou de combater a "coerência", entendida como cristalização e, portanto, antagónica da razão. E a metáfora mais aproximada desta evidência está n' "O Retrato de Dorian Gray": a natureza não se contraria.

De novo, os barros de Rosa Ramalho: frequentemente apodados de abstracções, sê-lo-ão se recusarmos, simultaneamente, a razão e a desrazão, os ilimites da criatividade e os constrangimentos a que a própria criatividade para si cria. No fundo: uma arte com alma, no sentido que Henri Agel atribuiu ao filme: "Le Cinéma a-t-il une âme?"; ou a demanda de todo o artista em acrescentar, ao conhecimento que possuímos do homem, o conhecimento que o artista foi adquirindo ao longo dos anos.

O que subjaz ao retrato é a ideia de que há muito de inacabado, de imperfeito e de horrorosamente oculto na construção humana, inclusive no seu pensamento, ele também uma construção, determinada por momentos. O artista vive entre o Génesis e o Apocalipse e o retrato que dos outros faz (no cinema, no teatro, na pintura, no romance) constitui a angustiada pesquisa de si mesmo. Eis porque o artista não tem de abrir a porta de marfim do inferno, como fez Virgílio, e enviar para o mundo bonanças precárias e ilusões efémeras. Mas, embora duvide da terapia social do seu discurso, não pode eliminar a natureza do seu trabalho criativo, que se baseia na identificação do trágico absoluto e na representação de uma forma particular de consciência.

Creio ser essa "consciência" que liga artistas tão aparentemente díspares como Rosa Ramalho ou Jorge Luís Borges; os barros da velha mulher de São Martinho de Galegos às pinturas perturbantes de Delvaux. Metafísica e razão. A razão metafísica dos sonhos. A matéria (ensinou Brecht) de que são feitos os homens.

Os barros da Rosa Ramalho (ou Ramalha) eram um outro lado da visão pessoal de uma mulher velha, que procurava os nossos olhos para um novo entendimento de uma outra realidade. Talvez sinais ocultos da Criação.»

 

 

«Os retratos próprios e os dos outros»
Crónica Baptista Bastos, in Jornal de Negócios (07 Outubro 2011)

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