Posts tagged 'Artesãos de Barcelos'
Lavores de Inês

Na grande banca branca, no meio do atelier, divisa-se a rotina daquela mulher franzina que já viu a grande roda das estações girar vezes que chegue para saber com que linhas se cose a vida.
Num cantinho,as linhas de cor com que borda os serões: toalhas de baptismo, fraldas e babetes; panos de tabuleiro, lenços de namorados, tapa-jarros e o que mais aprouver à fiel clientela do linho.
O pior é na hora de os deixar ir. É que a Inês não dá ponto sem um nó no coração. Às mãos que lavoram custa-lhes deixar ir o lavor. E às vezes, não há dinheiro que pague esse apego.
“Uma vez até chorei”.
“Chora muitas vezes”, remenda o marido – afinal, a quem ouve um conto, sempre assiste o direito de dar um ponto.
Começa-se então a desfiar o novelo das memórias...
A brincar é que a gente se entende

Não nos surpreenderia ter visto gnomos e duendes a seriar as peças das criaturas articuladas que povoam o atelier do senhor Soares. Do meio das máquinas e ferramentas, emergem as personagens de um imaginário que se perde na memória dos tempos. Até o Zé Moleiro anda por ali...
E não será de espantar ver, vez por outra, umas pernas ou uns braços como-que-perdidos. Perdidos não estão, só aguardam a vez de serem articulados a um qualquer Malaquias pinchão.
E ainda não vimos nada! Encostados a uma parede, empilham-se, como construções de legos, caixas e caixas de cartão, cheias de brinquedos. Com desembaraço, desempilha-as e volta a empilhá-las, para nos mostrar aviões e avionetas, comboios, carrinhos, patos, carrosséis, cavalinhos, iô-iôs, piões, fisgas, “rapas”, jogos do galo, e "pinta-tu".
Noutra caixa, teares, sarilhos e um rol de outros utensílios do linho de que já nem lembramos o nome - tudo em miniatura, porque tem mais graça a fazer-de-conta.
De vez em quando, suspende aquele abre-caixa-fecha-caixa, tira qualquer coisa das entranhas do papelão e pergunta, sem realmente esperar resposta, porque há muito que sabe que sim: “É mesmo giro, não é?”.
Viemos embora intrigados: será mesmo na Lapónia a oficina do Pai Natal?
Cobres Cunha: linhagem de caldeireiros

Hoje deu-nos para ir vasculhar memórias de uma das casas mais emblemáticas de Barcelos.
Quem nunca teve vontade de ver o que há para lá da velha fachada que todos os dias se veste de cobre, como que a lembrar que nem todas as vontades mudam com os tempo?
Pois bem, lá entrámos e foi com um misto de prazer e pudor que abrimos o livro de assentos do fundador desta linhagem de mestres caldeireiros e dali extraímos pedaços descontextualizados de outras vidas: pela letra aprumada de Manoel da Cunha Ferreira soubemos dos deves e haveres da clientela, desde 1910 até 1932.
Pelos retratos emoldurados na parede e pela papelada amarelada guardada no exíguo quartinho ao lado da oficina, soubemos de outras tantas personagens e histórias – sobretudo do filho daquele, João da Cunha Ferreira, que em 1932 abre as portas do nº 8 da rua da madalena, em Barcelos. E o que não soubemos pelos retratos, pelos recortes e pelos cadernos de notas, fizeram o filho e neto deste o favor de nos contar.
"Os paus, uns nascem para santos, outros para tamancos"

Tudo começou no Facebook, onde a D. Joaquina Torres comentou a imagem de uma banca de socos: “Olha os socos, parte do meu trabalho”. Sem perceber nada, quisemos saber tudo e logo ali ficou concertada uma visita à oficina onde ela e o marido, o sr. Joaquim, mantêm vivo um ofício em extinção.
São pauzeiros. Da madeira de amieiro, conhecida pela leveza e resistência à água, fazem os “paus”, como se chamam as solas de madeira onde um dia um tamanqueiro há-de pregar o couro e, assim, compor o típico calçado rural do Douro e Minho d’antigamente – os socos ou tamancos.
Os dois produzem ali cerca de 30 pares de solas por dia – quase nada, comparado com os quase mil pares que saíam diariamente da fábrica de paus de que, em tempos, o Joaquim foi sócio.
Ler o relato completo desta visita
Velhos, nem os trapos!

Na freguesia de S. Miguel da Carreira, em Barcelos, nem todas as mulheres saberão falar francês ou tocar piano – haverá, porventura, quem não saiba escrever o próprio nome – mas quase todas sabem bordar ou tecer.
Não ter adquirido essa virtude por privilégio de nascimento também não é fatalidade. Que o diga a menina Patrícia Lemos, moça na casa dos 20 anos, que conheceu um moçoilo daquelas bandas e por ali se instalou.
Logo quis uma anciã vizinha ensinar-lhe, entre outras artes, as técnicas de tecelagem que por ali se aprendem desde o berço. E não é que a cachopa tem mão para coisa? Ganhou-lhe o gosto, armou-se Penélope e agora é vê-la aviar encomendas com os farrapos desaproveitados nas fábricas têxteis ali em roda: tapetes, mantas, sacos de praia, sacos de mão, sacos de tiracolo.
O freguês só tem de pedir. A menina logo dirá se há farrapo disponível na cor pretendida e em quantidade suficiente. Não havendo, não faltarão alternativas. Afinal, trapos há muitos!
"Galos, cruzes e Gigantones - últimas criações"

Por ocasião das Festas das Cruzes, a cidade transforma-se, já se sabe. Mas não são só os carrinhos de choque, as farturas e os carrósseis... Seres estranhos descem à cidade e povoam os espaços comerciais – são galos, cruzes e gigantones!
São vários os artesãos que participam nesta iniciativa organizada, pelo segundo ano consecutivo, pela Associação de Artesãos de Barcelos. Entre nomes já habituais nestas lides, como Conceição Sapateiro, Júlia Ramalho, João Gonalves, Jesus Pias, Carlos Dias, João Alonso e Nelson Oliveira, esta edição contou ainda com a participação de dois 'novatos', Lucas Carvalho e Telmo Macedo.
Nas vitrines, as últimas criações dos artesãos locais convivem com toda a espécie de produtos e serviços – roupa, calçado, jóias e bijuterias, roupa interior, perfumes, pacotes turísticos, revistas e jornais, raspadinhas e jogos de sorte, químicos, aplicações bancárias e artigos religiosos. Nem sempre as afinidades são óbvias, mas o inusitado também tem aqui o seu propósito.
Numa ocasião de grande afluência turística, esta iniciativa coloca o artesanato local no centro gravitacional da cidade, vincando a associação desta actividade à cidade, nas memórias de que chega e de quem parte.
Carlos Dias: “Não sou a Cinderela”

Vive paredes-meias com os nomes sonantes do figurado de Barcelos, como Júlia Ramalho, Júlia Côta, a família Baraça, a família Mistério e os Pias, mas Carlos Dias demarca-se desse universo.
As formas minimalistas, os rostos sem definição, o formato miniatura e os tons naturais da porcelana e do grés, em contraste com as cores vivas do figurado de Barcelos, são o carimbo inconfundível de um artista que não se sujeita a regras de estilo pré-determinadas e produz apenas aquilo de que realmente gosta. “Não sou a Cinderela. Se tenho um pé grande, não tenho de caber num sapato pequeno. Quero ser livre”.
O público parece apreciar a irreverência. Não falha sequer na coleção de presépios da primeira-dama, Maria Cavaco Silva.
"Expressões do Figurado de Conceição Sapateiro"

Conceição Sapateiro é uma das mais reconhecidas artesãs ceramistas em Portugal. Tem uma ascensão rápida no contexto da arte popular portuguesa e ganha inúmeros prémios e distinções em feiras nacionais e internacionais. Destes, destaca-se a distinção como “Embaixatriz do Artesanato Português”, obtida em Tenerife, e o Prémio Nacional de Artesanato (1995/96).
A exposição “Expressões do Figurado de Conceição Sapateiro” oferece uma panorâmica da sua obra e pode ser vista na Sala Gótica dos Paços do Concelho até 28 de Abril.
Exposição
Sala Gótica dos Paços do Concelho (Barcelos)
De 27 Março a 28 de Abril de 2013
