Manuel Campos – Fatos, Togas e Becas por medida

Foi à conta de um chapéu com particulares feições que fomos dar com o senhor Manuel Campos. Havia um pedido a satisfazer e ninguém por estes lados que o pudesse executar. O anúncio de um alfaiate de alta-costura, especializado em fatos, togas e becas por medida levou-nos até Nine, onde tem casa aberta há décadas e onde o trabalho ainda lhe enche as medidas, apesar de este ser um ofício em declínio. É certo que as cadeias de pronto-a-vestir transformaram o registo de trabalho dos velhos alfaiates, mas nãotiraram lugar aos profissionais mais bem preparados, como é o caso deste nosso mestre, formado na Escola Técnica de Corte para Alfaiates e Camiseiros, em Lisboa, em 1976.
Foi ali, na afamada Academia de Corte Maguidal, que consolidou o saber-fazer que já levava na bagagem, ele que desde petiz ajudava na oficina de alfaiate do pai. Aprimorou a técnica de corte – que é do talhar que vai o bem trajar! – e aprendeu coisas novas, regras de conveniência e protocolo que ao pai não aprouve ensinar:
“À senhora tira-se as medidas sentada, nunca de pé!”
Da parede do atelier retira o certificado emoldurado e trá-lo até nós, para que possamos ler com os próprios olhos o seu nome ali escrito, sob a assinatura do fundador e director da escola, Manuel Guilherme de Almeida, autor do patenteado método de corte Maguidal. Tinha então 26 anos, tinha acabado de regressar do Ultramar, era o momento de tomar um rumo na vida. Foi o pai quem providenciou o seu ingresso na mais reputada escola de corte do país, também frequentada pelo irmão mais velho, hoje estabelecido na freguesia de Mouquim, não muito distante dali. “Tínhamos a técnica do meu pai, faltava-nos a certeza do corte”.
Entusiasmado pelo desfiar de memórias, procura debaixo da mesa de corte a sebenta dos seus tempos de pupilo, de que ainda se socorre quando a dúvida o assalta – episódio pouco frequente num profissional com mais de 40 anos de experiência.
Das folhas amarelecidas pelo tempo e pelo uso emergem complexos cálculos e elaborados esquemas geométricos, riscados pela sua própria mão. Os conteúdos, organizados por temáticas, evidenciam a organização, o método e o génio do mestre homónimo, Manuel Guilherme de Almeida, que vestiu as figuras mais ilustres da nação e criou os principais trajes académicos do país.
À medida que folheia, com nítida nostalgia, as páginas da velha sebenta, Manuel Campos vai descodificando a informação ali sintetizada em números e riscos: “Isto aqui é como alinhar o xadrez nos encaixes".
Do manequim mais próximo retira um blazer de senhor ainda em confeção e mostra as palas dos bolsos e os punhos. “Está a ver como o xadrez fica alinhado? É assim que tem de ser!”
Vira a página.
“Aqui são as calças de senhor.” Pousa a sebenta e compõe as suas próprias calças, em jeito de demonstração: “É assim que o vinco tem de cair sobre o pé. Às vezes vêem-se calças assim e assim (retorce o vinco), mas não, é assim que as calças têm de assentar (recompõe o vinco)”.
Mais uma página e um sorriso trocista nos lábios:
“Aqui é como fazer fatos para curvados e empertigados”.
De Lisboa trouxe a lição toda, para todas as situações. Mas por ali, os pedidos mais frequentes são os fatos tipo terno, os trajes académicos e os trajes jurídicos, como as togas e as becas.
A quem procura um fato para ocasiões especiais é o fato inglês que recomenda, sem qualquer hesitação. “É o melhor tecido que há.” E como que para o provar, vai buscar um rolo de tecido e desdobra-o para nos mostrar a inscrição marcada ao longo de toda a orla, na língua original: “Superfine Suiting with Kid Mohair Made in England”.
“Daqui não sai nenhum fato inglês por menos de 400,00€. Mas olhe que não é muito! Nas grandes lojas estão à venda por 2.000,00€”.
Trinta horas é o tempo normal de execução de um fato por medida, ainda que já o tenha feito em 24 horas, sem pausas nem interrupções.
Para quem procura capas, togas e becas, as opções são várias. Modelos para Homem e Senhora, uns mais simples, outros mais elaborados, em tecido brilhante ou fosco, com pregas ou favos de diferentes formas e feitios. Traz o manequim para fora do atelier nos mostrar, à luz do dia, que é nos detalhes que residem as diferenças substantivas.
Convencidos que estamos de que encontramos obreiro para o nosso chapéu, a esta porta voltaremos dentro de sete dias.













